...editora fenda... fenda edições, 30 anos no arame

Alface ~ Um pai porreiro ganha muito dinheiro


ilustrações de Pedro Proença
design de João Bicker
Fenda das raparigas, 2
1ª ed, Fenda 1997
2ª ed, Fenda 1998
3ª ed, Fenda 2001
[1000 ex]


As incursões em busca de fundos só ocorriam, recorde-se, quando o Sr. Branco era despedido e havia que fazer pela vida. Talvez esta circunstância justifique algum prazer punitivo com que tais acções eram encaradas pelo agregado familiar.
Entende-se tal sentimento e perdoa-se, dado que a vida de viúvo não é um mar de rosas.
E tanto assim é, que, no regresso ao lar, se tornavam inevitáveis os abraços de regozijo aos heróis carregados de notas.
Como homem habituado aos revezes da fortuna, o Sr. Branco comprava umas prendas para os vizinhos, abastecia a despensa e o frigorífico, dava uns doces ou brinquedos às crianças e, cheio de esperanças e ilusões, atirava-se à rua novamente atrás de emprego condigno.
Nestes tempos difíceis nem sempre a tarefa era coroada de êxito, mas ele não desistia. Sinceramente acreditava no valor duma educação que preza o suor do rosto como se de sal para o pão se tratasse. Podia passar meses nisso mas não desistia e encaixava recusas com trejeito compreensivo que constituía a sua imagem de marca.
Os miúdos não se ralavam, era a maneira de o pai andar ocupado. Restava-lhes a escola e a lida da casa com fraterno espírito de entre-ajuda, fruindo a rotina como só os verdadeiros aventureiros se atrevem.
Para Nino e para o pai aquele período de tréguas traduzia-se numa benção retemperadora das emoções que provocavam em outras terras e pessoas. Nunca, como em momentos que tais, a tranquila vida da família lhes sabia tão bem. O oásis durava até ao dia em que um felicíssimo Sr. Branco lhes aparecia com novo emprego. Fosse num armazém, nas obras, como estivador de porto, como estafeta, fosse como escriturário ou servente de limpeza, a alegria do pai era sempre genuína e só comparável ao cepticismo dos rapazes, que de antemão conheciam o final da história.
Apesar de previsível, a vida deles admitia excepções. Em rigor, 3 excepções. Todas 3 com o mesmo nome: férias.

António Pocinho ~ Os Mistérios de Casimiro


desenho gráfico de João Bicker
Fenda 2002


O Caminho Marítimo Para as Raparigas

(...)

Há algum tempo que não tenho nenhuma namorada. Não sei se é por causa dos meus ténis não serem de marca ou se é por às vezes me pôr a tirar macacos do nariz. A minha irmã contou-me que as miúdas não gostam de miúdos fedorentos, e eu confesso que às vezes não me apetece tomar banho.
Podia haver uma disciplina na escola para os rapazes aprenderem a arranjar namoradas. Não se davam negativas e havia aulas teóricas só para rapazes, porque as raparigas não precisam. A minha irmã, que é mais velha do que eu, arranja sempre o namorado que quer. Eu acho que vou passar a fazer como o namorado da minha irmã e esperar por uma miúda que saiba aquilo que quer.
Ultimamente, quando tento arranjar uma namorada, ou elas já têm alguém, ou acham que eu sou muito novo. O que acontece é que as miúdas me acham muita piada por calçar peúgas de cores diferentes e por estar sempre a fazer perguntas malucas nas aulas de história. Mas depois, quando as convido para sair à noite ou ir ao cinema , dizem que vão à natação ou que têm um jantar em casa da avó. É claro que não posso ir jantar a casa das suas avós, porque não gosto de pataniscas de bacalhau com arroz de feijão, mas passei a frequentar a piscina. Às vezes dou um mergulho e apareço-lhes de surpresa à tona de água, o que acaba por ser contraproducente, que é uma palavra que aprendi ontem na aula de educação visual.. Ficam assustadas e chamam-me "estúpido", um nome que as raparigas costumam chamar aos rapazes.

António Pocinho ~ Quanto custa criar uma sardinha


ilustrações de Pedro Proença
capa de João Bicker
Fenda das raparigas, 9
Fenda 1999
[1200 ex]


Mal sabiam do que se tinha passado, os peixes todos iam acorrendo a casa do Tamboril e da Cachucha, manifestando a sua solidariedade e oferecendo a sua ajuda para o que desse e viesse. O primeiro a aparecer foi o Peixe-Aranha. Como todos sabem, o Peixe-Aranha (aquele peixe em que, às vezes, os humanos se picam, na praia) não é comestível e, portanto, não tem qualquer preço no mercado. Por causa disso, o Tamboril tinha-lhe um grande desprezo, maior ainda do que aos peixes mais baratos, como o Carapau. O facto de o Peixe-Aranha ter sido o primeiro a aparecer deixou o Tamboril muito comovido. Abraçou-se logo a ele e até chorou. As lágrimas dos peixes não são líquidas, são gasosas. São pequenas bolhas de ar que se soltam dos olhos.
- Ó meu amigo, e eu que não lhe dava valor nenhum. De facto, o nosso preço não é aquele que nos dão no mercado. É o nosso carácter. E você demonstrou hoje que devia valer pelo menos 9 995$00 o quilo. Você é o peie mais caro que encontrei até hoje.
- O que lá vai, lá vai. O que é preciso é trazer de volta as suas sardinhas.
Logo a seguir, chegou o Carapau e então aí é que o Tamboril já não sabia o que é que havia de fazer com tanta emoção. Não parava de se desculpar:
- E eu que não vos tinha em bom preço. Vocês hoje estão a dar-me uma grande lição. Isto é uma autêntica revolução nos preços. Vejam lá se o Linguado, um peixe de 3 865$00 o quilo, aparece por aí! Não aparece...
Valia mais que o Tamboril estivesse calado porque o Linguado apareceu mesmo. E não só o Linguado... o Salmonete, a Solha, o Chicharro, a malta do Clube dos Cabeçudos, o Polvo, a Moreia, o Choco, a Faneca e o Faneco, a Lula, uma delegação da Academia das Ciências que não parava de dizer disparates, enfim, já não havia lugar para sentar tanta gente. Não fosse estarem todos ali reunidos por uma infelicidade, aquilo até parecia uma festa. E era de facto uma festa que todos esperavam quando as sardinhas voltassem.

João Rosas ~ Qualquer pessoa dá um homicida qualquer


ilustrações de Pedro Proença
capa de João Bicker
1ª ed, Fenda 1996
2ª ed, Fenda 1997
3ª ed, Fenda 1997
[2000 ex]


Tenho uma má notícia: adormeci a meio da festa. Quando nós chegámos, os rapazes ficaram todos lixados, inveja. Mas as gajas, não; tiveram uma reação que eu apreciei bastante; disseram logo: - Olha o Sandro! Olha o Sandro! - falavam baixo, mas eu sou como o K.I.T.T., o que quero ouvir, ouço. Uns minutos depois, o Ivar, cheio de ciúme, veio contar-me que elas tinham dito que eu era um palhaço esfomeado. Claro que não acreditei. O momento alto da noite passou-se antes de eu adormecer. Tudo aconteceu quando eu pedi para porem um disco do meu pai. Não sei porquê, mas recusaram. Como fiquei frustrado, fui comer. Dirigi-me com pés de lã à cozinha. Abri o frigorífico, e o paraíso da comida deparou-se à minha frente (ouvi esta frase num filme). Foi então que o mais belo ser humano à face da Terra (outra dos filmes), a Luísa, apareceu. O cabelo esvoaçava, as narinas abriam-se e fechavam-se; chamam-lhe BNT (bimba de nariz torto), mas ela não é bimba, e o nariz é a parte mais atraente do seu corpo. - Sai do frigorífico, meu grand'animal. És um palhaço nojento. Foi o meu record pessoal, em termos de manter uma conversa com a gata, 10 segundos. Foi um espectáculo. Mal cheguei a casa, fui ao forno, porque a minha mãe me tinha guardado um bocado de perna de borrego. Ela é a melhor mãe do mundo. O Porto joga hoje com o Leça (recém-chegado à primeira divisão). Vou começar a tomar banho duas vezes por semana, pois o meu pai disse que eu já estava a ficar um homenzinho e começava a cheirar mal. A partir de amanhã, vou fazer sempre uns exercícios antes de me deitar: 10 abdominais e 10 flexões.
Vi o Tenho Dois Amores com o Marco Paulo enquanto comia uma bolachas de chocolate que estavam escondidas no armário.

Patrícia Portela ~ Operação Cardume Rosa


texto e ilustrações de Patrícia Portela
editado para o Teatro O Resto
desenho gráfico de João Bicker
Fenda 1998


Nossa Senhora do Cagaço - a própria, gentilmente cedida para uma série de "aparições"

Boa noite, chamo-me Maria, muito prazer.
Hoje deixei-me dormir, perdi o comboio para a procissão e achei que era um bom dia para me confessar.

Fumo, fumo sim senhor e travo, fumo bem.
Nunca fiz jejum na Páscoa, adoro enchidos e bebo licorzinhos; ando descalça mas não me ajoelho assim com tanta frequência, praguejo, praguejo sim senhor, adormeço na hora do terço, vou a Fátima de autocarro, nunca a pé, não conheço Santiago de Compostela, adoro vermelho, adoro toucinho do céu e sou uma voyer... a minha alcunha é Nossa Sra. do Cagaço, porque há muito que vivo cheia de medo que descubram a verdade.

Hoje queimei o almoço, perdi as chaves de casa no metro e achei que era um bom dia para me queixar.

2000 anos, 2000 anos...
Faz hoje 2000 anos que tive um caso com Gepetto, o carpinteiro. Dei à luz um boneco de madeira sem nariz.
Ai Gepetto, Gepetto, furaste-me o coração pelas costas e desde então só amo com corrente de ar... Fizeste-me mal Gepetto e por tua causa passei a vida a mentir... desapareceste-me assim, sem mais... Dizer ao meu filho este tempo todo que o pai era uma pomba...

(suspira) 2000 anos, 2000 anos... quanto tempo dura ausência...
Por tua causa chamaram-me de tudo... até de mala...
Foste-te embora sem adeus e deixaste-me virgem de 7 meses na aldeia.
Fui um sucesso... gravuras, baixos-relevos, medalhinhas, posters, postais, figurinhas de barro e de madeira, até pratos... Tanta história se fez à minha volta...

Klaus Wagenbach ~ A Praga de Franz Kafka


"um livro de leitura e viagem"
tradução de Lumir Nahodil
capa de João Bicker/FBA
Fenda, 2001


O casamento e a fundação do negócio dos pais coincidiram no tempo (1882) e no local: na mesma casa do lado norte da Praça da Cidade Velha onde foram celebradas as bodas (Hotel Goldhammer), Hermann Kafka fundou o seu comércio de galantaria, de início em regime de venda a retalho e como 'loja de rua'. Dessa casa só chegou até nós um quadro (v.p.74). Logo em 1887 a loja mudou-se para um local da vizinhança igualmente vantajoso, a casa dos Reis Magos, onde se manteve até 1906. Era portanto ali que o filho podia assistir às saídas do pai, muito antes de a famíla também viver nessa casa:

A loja. Em princípio, ela deveria ter-me dado alegria, especialmente na minha infância, enquanto foi um negócio de rua. Era tão viva, iluminada à noite, viam-se e ouviam-se tantas coisas, podia-se ajudar com aplicação nisto e naquilo, mas sobretudo admirar-te pelos teus magníficos talentos comerciais... No entanto ouvia-te gritar, ralhar e bramir de tal modo que, segundo a minha opinião daquele tempo, não havia no mundo inteiro nada de semelhante. E não te limitavas a ralhar, mostravas ainda outras formas de tirania. Quando, por exemplo, varrias do balcão, com um gesto brusco, mercadorias que não querias que se confundissem com outras... Ou aquela frase que não te cansavas de repetir, relativamente a um caixeiro doente dos pulmões: 'Que estique o pernil, esse cão doente'. Dizias que os teus empregados eram os teus 'inimigos pagos', e eram isso mesmo, mas antes ainda de se o terem tornado, tu parecias ser inimigo deles, o 'inimigo pagante'.

J. -B. Pontalis ~ Entre o sonho e a dor


tradução de Miguel Serras Pereira
capa de João Bicker/FBA
Fenda, 2001


Freud, numa das primeiras definições que deu do recalcamento, achou possível dizer dele que era uma «falha de tradução». Que diremos, assim, da própria tradução necessariamente em falha, a não ser que se arrisca sempre a instalar um acréscimo de recalcamento? Pior ainda: um duplo recalcamento, o da língua materna do autor e, igualmente, da do tradutor.
Todo o tradutor está consciente do risco, ou devia estar.Oscila sempre entre um «traduzir demais», marcado pela preocupação da legibilidade e do correctamente dito, e um «traduzir de menos», colocado sob o signo da literalidade, da fidelidade absoluta ao texto original. No primeiro caso, entende submeter-se apenas às exigências da sua própria língua, ou até do seu próprio estilo; no segundo, quer obedecer apenas à língua e ao estilo do autor. Transpor ou decalcar? De facto, seja qual for a opção assumida, o tradutor é o agente de um dito de outra maneira: o próprio copista, que pretende apagar a sua intervenção, deforma. Afinal de contas, porque seria o tradutor o único a escapar às astúcias do inconsciente? Mas é difícil admitirmos que a operação de traduzir se dê sem perda, ou seja, castração. Para consentirmos na perda, precisamos de prever que dela algum ganho possa resultar.

Eileen MacDonald ~ Matem as Mulheres Primeiro


tradução de Pedro Serras Pereira
capa de Secretonix
Fenda, 2000


Pouco passa da meia-noite e a mulher de preto lá está outra vez, ali sozinha nos arrebaldes da cidade. Assim que começa a apedrejar o jipe dos militares, irrompem focos luminosos no escuro do céu e ouve-se o aviso do fogo de artilharia. A mulher desaparece. Passados dez minutos, quando tudo voltara à escuridão, reaparece e as pedras voltam a voar. Continua nisto durante duas horas. É a segunda noite que faz a sua demonstração solitária. Ninguém na cidade sabe quem ela é nem donde vem.

O céu azul parece estar repleto de objectos voadores - pedras e calhaus, uns catapultados por um perito com onze anos, outros debilmente arremessados por um pequeno titubeante. São lançados pneus em chamas, libertando um fumo acre que queima os olhos e o nariz. Os soldados retaliam com uma rajada de tiros e uma bomba de gás lacrimogénio. Toda a gente foge, mas um miúdo, com cerca de dez anos, é apanhado. Solta um grito lancinante quando um soldado lhe inflinge um violento golpe com um bastão de madeira, apanhando-lhe as costas e as pernas. Um bando de mulheres aparecidas sabe-se lá de onde, corre como as «Fúrias» na direcção do soldado que agarra o miúdo. Vendo-se cercado, o soldado, assustado, pára de bater no rapaz. Tenta repelir as mulheres que gritam todas elas pelo seu filho. No meio da confusão, uma delas arrebata-o e foge com ele dali para fora.

Ouvem-se tiros e berros no acampamento - os soldados estão aí. A mãe dá um pontapé no filho de oito anos, sentando-se absorta nas palavras que a irmã troca com o intérprete. O rapaz levanta-se de um pulo, corando, e desata a correr lá para fora. O intérprete explica: «Ela disse:'não tens vergonha? Vai lutar com os teus irmãos e irmãs'.»

Isto é a Intifada, a insurreição dos palestinianos, desde 1987, contra a invasão militar israelita do West Bank e da faixa de Gaza. Desculpar-se-á o facto de as pedras e os bocados de rocha, que constituem o grosso do arsenal dos guerrilheiros, não poderem ser classificados propriamente como armas de terror - especialmente quando se enfrenta um exército treinado e bem armado. As autoridades israelitas, porém, decretaram que qualquer pessoa que atire uma pedra a um soldado israelita está a ameaçar a segurança do Estado.

José Madeira ~ Camões Contra a Expansão e o Império


capa de Secretorix
Fenda, 2000


O que significa a mitologia é que os portugueses, que se dizem cristãos, pela sua acção se revelam pagãos e, como tal, toda a sua «gesta» fica deste modo condenada. Ao denunciar como falsa a mitologia, condena-se igualmente essa «gesta», constituindo esta denúncia um dos mais virulentos e significativos (porque estrutural) elementos da crítica à empresa narrada. O «hibridismo» a que nos temos vindo a referir, tema paralelo da confusão dos cultos, que trataremos em breve, explicita precisamente a obnubilação das consciências, a confusão que faz tomar por cristão o que não passa de idolatria, uma idolatria reiterada em toda a história de Portugal e da Europa. Mas vamos às provas.
A tese apontada há pouco, pela sua novidade e aparente contradição com todas as interpretações até ao momento produzidas, decerto exige uma demonstração mais detalhada. A sua justeza ficará, quanto a nós, convenientemente comprovada se se conseguir encontrar noutras partes da própria Obra de Camões expressão inequívoca do seu conteúdo, incluindo, obviamente, também Os Lusíadas. Começamos pela Lírica, pela simples razão de que foi por essa ordem que a investigação se desenvolveu. Igualmente esclarecedora será a perspectiva da mitologia ao nível dos antecedentes - tantas vezes invocados a título de «influências» - fornecidos pela tradição clássica, incluindo Platão, cristã, representada por Santo Agostinho, e humanista, com uma brave referência a Erasmo. O objectivo será mostrar que, também desse ponto de vista, a nossa tese sai reforçada, pois a atitude que atribuímos ao Poeta se harmoniza perfeitamente com uma tal tradição.

Eduardo Dâmaso ~ A Invasão Spinolista


capa de João Bicker
sobre pormenor de fotografia de Alfredo Cunha
Fenda, 1999
[2000 ex]


Porque a história, seja ela qual for, grande ou pequena, de um homem ou de um país, não deixa de ser a expressão de uma luta da memória contra o esquecimento, é importante contá-la. É a melhor maneira de preservar os traços caracterizadores da identidade de um povo. Contar as suas histórias é o instrumento ideal de combate a um atávico sonambulismo que marca a relação dos Portugueses com a história contemporânea de Portugal, um país onde a criação, seja ela literária, cinematográfica ou o próprio jornalismo, quase só esporadicamente se aventura nos meandros do passado.
Mas a essa espécie de alheamento colectivo também não é indiferente o manto de silêncio que envolve alguns dos episódios mais marcantes da vida nacional, depois da revolução de 1974. Há testemunhos que não se recolheram nem se sabe se alguma vez será possível obtê-los. Quantos anos terão de passar ainda para que as estórias da história se possam contar de alma limpa e aberta ao futuro? Quantos anos terão de passar para que os mistérios que permanecem sofram a natural erosão do tempo? Que país é este que deixa os pedaços dessa história ao sabor de cobiças ou temores privados, consentindo que os melhores repositórios e tempos que merecem uma catarse colectiva ou uma expiação de complexos de potência colonial - ou nem uma coisa nem outra, tão-só ser contados às gerações vindouras - sejam inutilmente perdidos ou devassados sem critério?

em 2006 era assim

Edgar Prestage ~ D. Francisco Manuel de Mello ~ Esboço Biographico


capa de João Bicker
Fenda, 1996
[50 ex numerados de F01 a F50 +
450 ex numerados de 1 a 450]


Foi nos fins de 1637 que o povo da capital alemtejana se insurgiu contra as auctoridades, saqueando os cartorios, queimando os livros reaes que servião de registro aos direitos publicos, e libertando os presos da cadeia. Na apparencia os nobres fizeram o possivel para acalmar os animos, mas muitos entendião-se secretamente com os cabeças do motim, e assim como os Jesuitas, que erão altamente respeitados na cidade, «tacitamente contribuião ás esperanças de alguma novidade», na phase caracteristica do nosso auctor, ao passo que os Dominicanos abertamente favorecião a causa popular. Segundo a observação dos adeptos do Sebastianismo, erão por aquelle tempo chegados muitos dos signaes que havião de anteceder a libertação de Portugal do jugo estrangeiro.
Recebida a nova em Madrid, foi julgada sem importancia, mas os de Evora, gloriando-se das suas acções, começavão a entender-se com os povos vizinhos, e estabeleceu-se uma Junta revolucionaria, que governava debaixo do nome e auctoridade d'um doudo e «dizedor», o Manuelinho. Em pouco tempo o movimento tinha alastrado pelo Alemtejo, e em Villa Viçosa levantavão-se vozes que acclamavão o Duque de Bragança como Rei. Este, não julgando o momento azado (e teve razão) tratou de reprimir estas demonstrações inconvenientes, e estando impossibilitado por doença, fez sahir de noite pelas ruas o Duque de Barcellos, D. Theodosio, então da idade de tres anos, a fim de serenar os animos populares, o que conseguiu. Procurava a Princeza Regente Margarida atalhar a sedição, mandando varios emissarios a Evora, mas sem resultado, e perdidas as esperanças de abafa-la com meios suaves, tanto em Madrid como em Lisboa se foi introduzindo a pratica do castigo. Comtudo luctava-se com difficuldades grandes, porque o poder de armas em Portugal era pouco, e com esta certeza, crescia o numero e soberba dos inquietos.

António Cabrita ~ Arte Negra


colecção Fenda Luminosa, 16
dirigida por Vasco Santos
Fenda, 2000
[1100 ex]


I beg your pardon!
Passeios em Dante

1

A meio do Arquimarché, entre PêCês e Cêdês
Rom's - um rosto lacunar e prateado pelas quatro
línguas do garfo, sob o braço - pareceu ao poeta

que o poema o trepanava. Ia o sobredito leve
de sobrolhos, a tarde engatilhada em quatro taças
de verde e soube de repente que dentro em si

ainda abalos vários campeavam: «o sentido
é o lobo da palavra: faça-se a batida!»
Houvera um Virgilio-da-Guarda pelo desfolhar

das mãos ou por florestas de maçanetas e chips,
um sonho derradeiro que desferisse razões.
Mas a fé, a extrema fé, só gerara cucus e pensões

e na ala de graxas e sapatos, provido de polaróide,
afrontava agora a fera oval - o seu passado
de extravios que algemou ao menor dos círculos

todo o firmamento - e descobria-se tão iludido
como encurtado por um surto de facturas:
«O sentido é o lobo da palavra: faça-se a batida!»

Urgia ao poeta uma tesoura de poda.
A palavra já mergulhava no tinteiro o nervo exposto
incendiava por conta própria o medo o sabugo

e o nado-anjo. A palavra que emala ilhas
águas intermédias e cumula insónias, à luz
mais débil, fazendo regurgitar maremotos

e a estricnina, ria-se sem dó das suas últimas
conquistas: impostos sem atrasos, idas ao cinema
uma por outra travessia das fronteiras.

Até ao balcão dos queijos nada o sossegou.
E pior ainda entre laxantes, pranchas de surf
legumes e apalpa-folgas - o poeta já se via

esborratado na ardósia, à chuva e sem acinte,
à mercê das matizes mais avulsas e dos «amigos»
invisíveis que em perigos o mar excedem

e fazem dobrar todas as línguas.
Cismando na renúncia o vate suplicava
o arraso das gavinhas: à tona e sem remorso.

Mas abriam-se as cortinas ao amealhar
da sílaba, a cifra estreitava-lhe os pulmões:
«...o lobo da palavra - faça-se a batida!».

(...)

João Camilo ~ para a desconhecida


capa de Sem OI
colecção As Lágrimas de Eros, 9
Fenda, 1983
[1500 ex, 200 dos quais fora de mercado]


As crinas do vento

O vento: música ou murmúrio da árvore.
Encosta a obsessão à parede branca dos quintais.
Vento de mar? E jovem leva a nuvem.
Os sinos de bronze, o cimo das serras:
viver é brusco, tão incerto.
E a minha mão, desabituada de sentir que toca
e é gesto
e me deixa possuir,
a minha mão quer a janela aberta. O vento não tem,
não, não tem
crinas.
Nem as costas luzidias de cavalo ou égua.
Áspero,
vidro partido espetado na terra.
Os dentes de uma serra,
espaço de repouso e cume que agride.
Pôr a mão em tanto
e sem respirar
quando parecia que era tarde e apenas
hora de dormir?

António Pedro Pita ~ Está pronta a paisagem


as lágrimas de eros 8
capa de Todas Manas


Percorro o vidro
uma ausente transparência
o frio
o gume do sangue

Percorro o frio
uma opacidade ténue ingrata
um raro rosto de água e rápido
meu e de vidro

Percorro a transparência
o frio
Fica uma leve impressão
digital
um sulco que (se) desfaz perto do silêncio

Carmo Sousa Lima ~ Paisagem branca


capa de João Bicker
Fenda 1997
[500 ex]


.................................................................ao Jordi Savall
.............................................enquanto tocava Thobias Hume


os dedos da voz
rolam
em marés

o som
respira
pelo oval da sombra

pássaros
cegos de espaço
pairam
numa abóbada de silêncio

Viola da gamba
terno terno
Dragão

Pravda 3


direcção e organização de Júlio Henriques e Vasco Santos
colaborador neste número: João Damasceno
capa de Zepe
Fenda, 1985


Por obra e graça da Rainha Santa,
nossa padroeira e altíssima protectora,
foi este terceiro número de Pravda terminado
no santíssimo mês de Outubro, do ano de 1985,
em Coimbra, na Tipografia do Outro Mundo.
A capa foi manufacturada pela oficina Am/Produções
Serigráficas da Reboleira.
DEO GRATIAS.

[o colófone]

Fenda ~ Almanaque Topogáfico 4


Fenda, 2001
[2000 ex]


Vou agora contar-lhes como nasci, como cresci e como surgiram em mim as primeiras marcas do génio. Nasci duas vezes. Vejamos como isso aconteceu.
Meu pai casou com minha mãe em 1902. Os meus pais, no entanto, só me deitaram ao mundo em finais de 1905, porque o meu pai desejava que o filho dele nascesse exactamente no Ano Novo. Como tinha calculado que a concepção deveria ocorrer no dia 1 de Abril, só nesse dia abordou a minha mãe para lhe dizer que concebessem um filho.
O meu pai deu esses primeiros passos junto de minha mãe a 1 de Abril de 1903. Minha mãe, que há muito aguardava esse momento, ficou muitíssimo contente. Mas tudo indica que meu pai estava de humor brincalhão, porque não conseguiu conter-se e disse a minha mãe: «Hoje é Dia das Mentiras!».
Minha mãe ficou terrivelmente ofendida e nesse dia não voltou a deixar que ele se aproximasse dela. Foi preciso esperar pelo ano seguinte.
(...)

[excerto de «Como eu nasci» de Daniil Kharms]

Fenda ~ Almanaque Topográfico 3


Fenda, 2000
[2000 ex]


Sob o alto patrocínio do bacalhau escrevi este livro.
A partir de hoje, em homenagem à Amália Rodrigues, vou-me vestir de bacalhau.
É pena vocês não poderem apreciar, mas já comecei a pôr em prática este meu propósito. O colete, inteiramente em bacalhau, que hoje devia usar aqui, foi-me roubado esta manhã quando o dependurei à entrada duma retrete pública da Graça. Só ficaram no chão as presilhas em metal. Estas.
Paciência. Paciência também para o meu pai, que teve um trabalhão enorme para fazer um tão magnífico colete. Isto prova que há gente neste país que não perde o norte. Mas não pensem que as minhas teimosias e homenagens acabaram aqui.
Soube pela minha amiga e amante norueguesa Elisabeth Hessen que uns lapões de Kirkenes, senhores de três rebanhos de renas, são especialistas nesta matéria.
Onde eles vivem é muito para lá das ilhas Lofoten, no país dos fiordes, não muito longe da fronteira russa. Em pleno Ártico, com temperaturas inferiores a 42 graus e com invernos onde durante dois meses não se vê a mínima luz do dia. Onde os vizinhos, com o peso da neve e do silêncio, são potenciais assassinos ou nos ignoram totalmente. Mas nos sonhos mais íntimos, cheios de espinhos náufragos, eles por vezes tentam a emboscada. É pois em tais paragens que os Friedriksen vivem.
Já lhes encomendei um chapéu de bacalhau.
Já lhes pedi para me fazerem para o ano que vem uma camisa e um casaco de bacalhau.
Só espero a vossa compreensão para o ano que vem.
Se me toparem na rua todo vestido de bacalhau, não virem a cara como se não me conhecessem.
Não desatem a rir às gargalhadas.
Não me chamem doido ou extravagante.
Porque eu continuo a ser humano.
Embora me tenha des-pendurado.
Também peço aos mais pobres e aos mais impacientes que não me metam logo de molho.
Deixem-me respirar um bocadinho. Antes de me mergulharem em água fria.

[texto lido pelo autor, na apresentação do seu livro Adeusamália, na Livraria Ler Devagar, em Lisboa, Dezembro de 1999]

Fenda ~ Almanaque Topográfico 1


Fenda, 1999
[2000 ex]


A dividida música do pensamento

escreve o nó desdobrado
até ao infinito, atravessando
olhos nulos
em brasa,

o grito
fincado em cima
supende-se, com a duna
finalmente situada,
para ele se arremessa, no novo,
consulta-o, de uma vez
por todas, cercado
por um fervor que galga,

a queimadura
ébria
do sinal de Caim na neve do bosque
jorrando a meia-voz a martelar na neve,
de súbito alumiada, es-
quadrilhada pelos sinos insistentes,
atrás do sabugueiro
sonolenta adormece.

O outro caminho dividido
alimenta a fonte
vaporosa.


[poema de Paul Celan, dedicado a Henry Michaux, traduzido por JG Ostermeyer e Júlio Henriques]